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  1. José Vaz e Silva

    DA CRISE DO CAPITALISMO À CRISE DO TRABALHO
    Com a crise financeira despoletada em 2007/2008 o sistema capitalista financeiro-especulativo sofreu um profundo choque que abalou toda a finança global e pôs em risco o próprio capitalismo.
    Desde então para cá temos ouvido frequentemente, por diversas correntes de opinião, que o sistema capitalista está próximo do colapso e que a sua recuperação é uma ilusão que não se concretizará ou, pelo menos, que nada ficará como dantes.
    Os argumentos em que se baseiam para justificar as suas conclusões, são a estagnação e recessão económica, principalmente, nos EUA e EU, em consequência da crise financeira, que provocou a falência milhares de pequenas e médias empresas e famílias e elevou as percentagens do desemprego para dois dígitos; a redução real dos salários para a maioria e o aumento da precariedade laboral; destruição dos serviços sociais associada ao aumento da pobreza e das desigualdades, etc., etc.
    Outros ainda, mais comprometidos com o sistema ou totalmente embrenhados nele, argumentam que nada ficará como dantes depois do colapso financeiro, que haverá mais regulação do sistema, o que não permitirá que voltem a ser cometidos os erros do passado.
    Há também aqueles que mais papistas que o Papa e fiéis à ideologia que servem e se servem como sacerdotes, afirmam aos ventos que o problema não foi falta de regulação da finança, mas sim o contrário, excesso de regulação que impediu o livre mercado de funcionar, e portanto, com a completa e efectiva liberalização tais problemas jamais se repetirão.
    Á saída de toda esta cacofonia, temos a realidade do presente e a realidade que se aproxima e que não se coaduna com teses de vão de escada e que têm servido, sobretudo, para entreter o rebanho.
    Essa realidade é que não há qualquer crise global do capitalismo, como se afirma por aí, nem o mesmo vai colapsar; a sua crise momentânea foi imediatamente ultrapassada à custa dos contribuintes. A crise que sobrou é uma crise de humanidade, onde os valores do trabalho, dos direitos sociais e laborais, da solidariedade social, da decência, são cada vez mais espezinhados pelos interesses dos feudos globais, personificação das transnacionais da finança, do comércio e da indústria, que comandam a seu bel prazer e interesse os destinos da humanidade. Os governos nacionais são meros fantoches nas mãos destes poderosos interesses, assim como toda a comunicação social dita de referência, que assim vão fabricando e moldando o pensamento único vigente em função dos interesses dos poderes dominantes. E esta pseudo crise global do capitalismo, que tanto se fala, tem servido de pretexto para os governos servis dos ditos poderes, aplicarem aos seus povos uma terapia de choque que se consubstancia num ataque sem precedentes às conquistas civilizacionais do pós guerra no ocidente. Na maioria dos países ocidentais, as instituições do chamado Estado de direito, incluindo o governo, que deveriam estar ao serviço da democracia e dos povos de cada país, foram tomados por uma corja parasitária ligada aos grandes interesses capitalistas e financeiros que, dessa forma, vêm os seus interesses salvaguardados. Veja-se só o que se passa com a administração de Obama, nos EUA, que é controlada na totalidade pelos homens da Wall Street, os grandes responsáveis pela derrocada financeira de 2007/2008; ou ainda os tecnocratas ligados à finança que foram colocados, de forma antidemocrática, na governança de diversos países europeus, para assim defenderem os interesses dessa mesma finança e do grande capital.
    Esta promiscuidade vergonhosa e antidemocrática entre os interesses do grande capital financeiro e o poder democrático, contribuiu fortemente para que os bancos se tornassem a força dominante das economias ocidentais. Os capitalistas financeiros já não precisam de justificar absolutamente nada quer contribuam para a utilidade social ou não e, em boa verdade, não têm contribuído nada para a utilidade social, antes pelo contrário.
    A promiscuidade entre o poder democrático e suas instituições e os grandes interesses capitalistas é particularmente evidente em Portugal e é um dos grandes problemas estruturais do país.Com o governo, classista, em funções, os interesses da classe capitalista estão assegurados. O seu programa ideológico de terapia de choque neoliberal, que passa pela eliminando direitos laborais e sociais, e pelo empobrecimento da maioria da população, é a salvaguarda dos interesses do grande capital, isto, com ou sem troika.
    E mais, a profunda crise económica e financeira em que o país está mergulhado, e que este governo tem aprofundado, é a consequência directa da promiscuidade entre os diversos interesse instalados. Porque a crise não é para todos, as oligarquias da distribuição (continente, pingo doce, etc.), por exemplo, ficam à margem desta crise, continuam a aumentar os seus lucros e, sobretudo, a sua cota de mercado, pois beneficiam de condições excepcionais para práticas comerciais pouco éticas e muitas vezes ilegais tendo em conta a concorrência das pequenas e médias empresas que desesperam na tentativa de sobreviver. Por outro lado, o governo vai impondo o seu programa ideológico, vendendo ao desbarato as empresas monopolistas e estratégicas que restam nas mãos do Estado português, curiosamente, algumas dessas vendas a Estados estrangeiros, ficando o país cada vez mais na mão dos interesses transnacionais.
    Portanto, a crise do capital foi sabiamente transformada numa crise do trabalho e numa crise económica, principalmente nos países do sul da Europa. Crise essa que está a degradar as condições de vida e de trabalho da maioria, enquanto a classe capitalista se apodera cada vez mais das principais posições de decisão, quer na Europa quer nos EUA, depois que foram canalizados biliões para corporações capitalistas, estas agora vêm seus lucros maximizados e o seu poder reforçado. Ou seja, socializam-se os prejuízos e privatizam-se os lucros. É esta a filosofia do capitalismo selvagem vigente e cada vez mais florescente. A crise é para o rebanho, que trabalhe mais para a pagar.
    No caso português, o escândalo não é menor, para além dos milhões de fundos públicos enterrados no BPN, o banco dos amigos do PSD e de Cavaco, depois da fraude que o levou á falência, sem que ninguém fosse responsabilizado, a CGD, o banco estatal que deveria servir para financiar a economia real, tem-se dedicado nos últimos anos a financiar certos capitalistas especuladores na aquisição de acções e outros produtos especulativos, e agora que esses produtos nada valem, os prejuízos esses são socializados, claro está, é a boa filosofia capitalista que floresce também em Portugal.
    A chamada crise global do capitalismo, portanto, é na verdade uma vitória retumbante do mesmo e uma derrota nas mesmas proporções dos valores civilizacionais ocidentais conquistados no pós guerra e que eram referência para o resto do mundo.
    Termino com o poema “Quem Diz Que É Pela Rainha” de José Afonso, que é um retrato fidedigno dos dias de hoje, não só em Portugal.
    Quem diz que é pela rainha
    Nem precisa de mais nada
    Embora seja ladrão
    Pode roubar à vontade
    Todos lhe apertam a mão
    É homem de sociedade
    Acima da pobre gente
    Subiu quem tem bons padrinhos
    De colarinhos gomados
    Perfumando os ministérios
    É dono dos homens sérios
    Ninguém lhe vai aos costados
    José Afonso
    Quem Diz Que É Pela Rainha
    José Vaz e Silva

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